Jean Galvão e a transformação da vida em um longo recreio

Antes de chegar ao tema principal deste texto, gostaria de informar que ele terá um tom muito pessoal. Até procurei formas de me ausentar do que escrevia, mas é simplesmente impossível quando a matéria é baseada em um dos meus ídolos de infância: Jean Galvão.

Pra quem não sabe de quem estou falando, Galvão é cartunista há 27 anos e ganhou três prêmios Vladimir Herzog, que é só um dos maiores prêmios de direitos humanos do jornalismo. Publica seus trabalhos na Folha desde o ano 2000, faz charges para o Canal Um Brasil, cartuns de temas diversos para o jornal Plural e ilustrações para livros didáticos.

O cartunista Jean Galvão em entrevista ao canal Um Brasil – foto: reprodução

Assim como muitos brasileiros de minha idade, tive meu primeiro contato com os trampos do Jean no início dos anos 2000, quando ele publicava as Animatiras na saudosa revista Recreio, que trazia matérias e curiosidades para crianças e pré-adolescentes. Se eu não tivesse devorado essas revistas por tantos anos, talvez eu nunca tivesse me interessado por jornalismo e, consequentemente, não teria criado o Pão Com Lixo para poder contar essa história hoje.

Em uma muito prazerosa entrevista com o cartunista, ele me revelou que recebeu o convite para fazer ilustrações para a Recreio pouco tempo depois de sua estreia nas bancas. “Como minha pegada é mais de humor, logo me perguntaram se eu fazia tirinhas também. Topei na hora e fiz por uns 10 anos, uma por semana. Um trabalho que me dava enorme prazer”.

E esse prazer era transmitido para os jovens leitores. Para você ter uma ideia, junto com as Animatiras, eram publicadas tirinhas internacionais, com personagens famosíssimos, como Snoopy, Garfield e muitos outros. Mas advinha de quem a garotada gostava mais?

Com os traços leves e as cores encantadoras de Jean, as Animatiras narravam a rotina de uma turma de crianças e do divertidíssimo cachorro Tuneba. Claro que na época eu não tinha a menor condição de fazer comentários técnicos sobre a qualidade dos trocadilhos ou das piadas visuais, mas eu amava chegar na escola e contar para os meus amigos o quanto tinha rido da última tirinha.

“Muitos pais me diziam que, tanto eles quanto os filhos, adoravam as tiras”, conta Galvão. “Eu recebia cartas (cartas mesmo) e desenhos das crianças. Sempre respondia e fazia um desenho exclusivo. Foi assim que eu senti que tinha criatividade e que estava conseguindo produzir humor de qualidade”.

Outra característica das tiras de Jean é que elas não envelhecem, te fazendo rir daquelas piadas em qualquer fase da vida. “Tento evitar que aconteça aquela situação em que gostamos de algo na infância e, ao rever na vida adulta, achamos sem graça ou nos decepcionamos”, explica. “Outro ponto importante que sempre tenho em mente é evitar desenhar objetos tecnológicos nas tiras pra crianças. O motivo não é moral, social, nem nada. Mas esses objetos acabam datando a tira”.

Claro que é difícil manter o prazo de validade nas charges políticas, já que elas são baseadas em notícias e, em poucos anos, precisarão de um contexto para que sejam entendidas. Ainda assim, o cara faz um trabalho magnífico nessa área, agradando até aqueles que o conheceram na época da Recreio e hoje já são obrigados a votar, a trabalhar e a acompanhar as notícias “sérias”.

 Engraçada é a Vó!

Outra série de Galvão que dificilmente envelhecerá, curiosamente retrata a vida da idosa mais fofinha dos quadrinhos: a !

Publicada pela primeira vez no Jornal do Brasil, a convite do Ziraldo, por volta de 2004, a Vó passou um tempo sumida até ganhar um álbum publicado pela Leya, em 2010. Depois disso o autor conta que “esqueceu” a personagem, pois achava que já tinha explorado todo o potencial dela.

“Mas os leitores não a esqueceram. Comecei a postar umas tiras antigas da Vó no meu Instagram (clique aqui para seguir) e elas faziam um certo sucesso ali. No final de 2018, me propus a criar novas tiras, uma por dia, e postar. Isso trouxe muitos novos seguidores e muitos comentários. Então venho fazendo, na medida em que é divertido pra mim”.

E o cartunista enxerga com bons olhos esse contato com o público e a facilidade de divulgação que a internet proporciona a quem deseja publicar seus quadrinhos. “além de que, mesmo antes da internet, já não havia muito espaço para tirinhas nos jornais, a não ser as de sempre ou as internacionais”, conta.

Hoje, mais antenado no mundo das “tiras virtuais”, Jean revela que acompanha os trabalhos de artistas de várias idades e se diverte com os quadrinhos de Pedro Leite, Caio Gomez, Yorhán Araújo, Lucas Moreira, entre outros.

Jean Galvão terminou a entrevista agradecendo aos leitores pelo carinho. E eu termino esse texto agradecendo ao Jean pela inspiração de muitos desenhos feitos no caderno da escola, por me incentivar a conhecer e acompanhar o trabalho de mais cartunistas, por continuar me fazendo rir com suas tiras e, é claro, por essa entrevista inesquecível. Valeu, Jean!

3 comentários

  1. Sempre fui muito fã das tirinhas do Jean na Recreio! Interessante como o nome dele marcou, assim como o traço, mesmo na infância. Nunca esqueci!
    Foi uma entrevista bastante saudosista, Daniel!

  2. Fico feliz que tenha gostado da entrevista e se identificado! Dá orgulho falar de artistas como o Jean e espero continuar contando histórias de outros autores tão talentosos quanto ele 😉

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