Entrevista com Sâmela Hidalgo – Assistente Editorial da Devir Brasil

Com a expansão contínua do mercado nacional de quadrinhos, é normal que muitos apaixonados pela nona arte fiquem com vontade de trabalhar nesse setor. Pra essa galera, a amazonense Sâmela Hidalgo é uma grande inspiração.

Após abandonar a faculdade de Arquitetura em Manaus, Sâmela veio para São Paulo para cursar Produção Editorial e, graças a indicação de uma amiga, trabalha há 3 anos na Devir Brasil. Hoje, Assistente Editorial e Imprensa, a manaura de apenas 26 anos traz na bagagem muita experiência invejável com HQs, desde participar do projeto editorial da Liga Extraordinária 1898 e Dossiê Negro (ambos do Alan Moore), até conhecer o Gerard Way, autor de The Umbrella Academy e vocalista do My Chemical Romance.

Nesta entrevista exclusiva ao Pão Com Lixo, Sâmela compartilhou um pouco de suas experiências profissionais e falou sobre sua relação com os quadrinhos, autores e leitores.

Foto: Arquivo Pessoal

Pão Com Lixo:    Você já comentou em outras entrevistas que cursava Arquitetura em Manaus quando decidiu se mudar para São Paulo. O que te fez abandonar a faculdade? Chegou a fazer outra graduação por aqui?

Sâmela Hidalgo: Eu percebi que aquilo não era algo que eu amava, nem o que eu queria fazer pelo resto da vida. Não era minha vocação, nem minha paixão. Era só mais um curso que “dava dinheiro”, então decidi procurar fazer algo que eu realmente amasse: ler. Foi então que mudei pra São Paulo pra cursar Produção Editorial, em 2015.

PCL:    Quando ainda morava em Manaus, você tinha o hábito de ler quadrinhos? Quais? Em algum momento, antes de sua amiga te indicar para a vaga na Devir, você imaginava que poderia trabalhar com isso?

SH: Não muito, pra falar a verdade. Os livros sempre foram minha maior paixão. Meu objetivo era trabalhar numa editora de romances, mas na faculdade de Produção Editorial eu conheci Maus, do Art Spielgeman… e tudo se encaixou. Nunca pensei em trabalhar com quadrinhos especificamente, como disse, meu objetivo eram os livros. Mas me encontrei profissionalmente nos quadrinhos, achei uma paixão maior que os livros. E isso mudou tudo!

PCL:    Sua relação com a nona arte mudou depois que começou a trabalhar como assistente editorial? De qual forma?

SH: Mudou bastante! Eu passei a conhecer obras que abriram minha mente, me tiraram o preconceito de que quadrinhos era algo infantil. Mudou todo meu pensamento e jeito de ver um projeto editorial. Mudou minha relação com a escrita, com a imagem, com a narrativa e me mostrou um novo jeito de contar uma história. Foi e ainda é um aprendizado constante.

PCL:    Nestes anos como editora, teve algum projeto que te marcou de maneira especial? Qual e por quê?

SH: Eu sempre digo que foi o Liga Extraordinária 1898, porque era um projeto grande e de certa forma audacioso e foi um trabalho incrível da equipe inteira, não somente eu, como assistente. E também porque tinha muita pressão em cima, né? Alan Moore é Alan Moore. Mas acho que dessa vez vou dizer que foi o nosso projeto do Dia do Quadrinho Grátis. Quando surgiu a ideia, em 2016, era algo completamente inédito aqui. Nos baseamos no Free Comic Book Day dos Estados Unidos e fizemos dois exemplares especiais: The Umbrella Academy, do Gerard Way e Gabriel Bá e Piratas do Tietê, da Laerte. Foram dois títulos de peso feitos especialmente para o Dia do Quadrinho Grátis. Distribuímos gratuitamente em mais de 30 comic shops pelo Brasil e continuamos fazendo isso todos os anos, com títulos diferentes. É um projeto bem especial.

Foto: Divulgação

PCL:    Tem algum autor que você gostaria muito de editar algum dia? Qual e por quê?

SH:  Gail Simone, G. Willow Wilson, Kelly Sue DeConnick… porque todas são mulheres incríveis e de quem eu sou muito fã. Provavelmente eu tremeria e gaguejaria na presença delas.

PCL:    Os leitores de quadrinhos costumam ser muito apaixonados por tudo o que envolve essa arte e acabam se tornando fãs não só dos autores e desenhistas, como também dos editores. Para você, como é a experiência de lidar com o público? Já teve algum caso que te marcou?

SH: Como sou assistente editorial, acho que os leitores não têm muito esse apelo como tem pelos editores mesmo. Mas é sempre bom encontrar nossos leitores e conversar sobre o título de forma tão apaixonada que só eles sabem. Não é muito algo relacionado à edição em si, mas um caso que me marcou foi na última CCXP que, depois do painel sobre personagens femininas que eu participei, algumas pessoas que estavam na plateia vieram falar comigo e me agradecer por dar visibilidade aos artistas e quadrinistas do Norte. Foi algo que mexeu muito comigo e que me fez perceber que todo meu trabalho estava valendo a pena.

PCL:    Nos últimos anos, várias mulheres talentosas se destacaram no mercado de HQs e com certeza servem de inspiração para várias outras que ainda estão começando sua carreira. Já teve alguma quadrinista que te procurou para apresentar seu trabalho? Qual a sensação de poder contribuir para deixar esse mercado menos masculino e muito mais plural?

SH: Sim, já tiveram algumas autoras. E que bom que estamos cada vez mais ocupando esse mercado, porque somos muitas e cada uma de nós contribui de um jeitinho pra deixar esse meio cada vez mais diverso e confortável pra mais mulheres chegarem. Acho que todos nós já aprendemos que cultura pop e quadrinhos no geral também está no DNA feminino. E nós amamos isso!

PCL:    Qual conselho você daria para quem quer trabalhar com edição de quadrinhos?

SH: O conselho que sempre dou é: faça contatos! Converse com os profissionais da área, faça cursos relacionados à quadrinhos e troque experiências e dúvidas com os colegas que também estão fazendo o curso. Vá em eventos, se apresente aos quadrinistas, editores, tradutores. Nesse meio, ter contatos é uma das coisas mais importantes.

E leia bastante! Esteja sempre lendo – nacionais e internacionais. Esteja sempre a par do que está sendo produzido no mercado.

PCL:    Gostaria de deixar um recado final para os leitores do Pão Com Lixo ou mencionar algo que não perguntei, mas acha importante?

SH: Leiam artistas fora do eixo sul-sudeste. Conheçam obras e quadrinistas do norte e do nordeste. Tem muita coisa incrível sendo produzida em outros eixos. Vamos dar uma oportunidade à novos autores, novas formas de contar histórias, novas narrativas. Sejamos plurais! Vamos descentralizar a produção de quadrinhos no Brasil!

5 comentários

  1. Não reduza o tamanho dos seus sonhos para caber na sua realidade,expanda sua realidade para comportar seus sonhos! Essa é a maior mensagem que essa linda jovem deixar pra todos! Apaixonada ♥️

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