A pandemia está forçando o mercado de HQs a se transformar?

A pandemia do novo coronavírus afetou o mundo inteiro e está nos fazendo viver uma situação que, há alguns meses, pareceria coisa de ficção científica. A necessidade de ficar em casa alterou a nossa forma de trabalhar, de fazer compras e de consumir conteúdos artísticos. E, embora muitos empreendedores estejam conseguindo se adaptar a essa nova realidade, o futuro de muitos negócios ainda é incerto.

A situação do mercado de HQs não é diferente. Nos Estados Unidos, por exemplo, a distribuidora Diamond Comics chegou a anunciar que suspenderia suas atividades, o que fez com que editoras como DC e Marvel adiassem o lançamento de novos quadrinhos. Mas é claro que, mesmo que todas as publicações chegassem às lojas normalmente, ainda seria difícil manter os lucros sem a presença de clientes.

Guilherme Lorandi, proprietário da Loja Monstra (famosa gibiteria de São Paulo), nos contou que teve uma queda de 90% do faturamento desde o início da quarentena, em meados de março. Para não desistir do negócio, Lorandi contou com o apoio dos clientes e apostou em novas formas de se aproximar do público: “No começo eu me assustei e cheguei a deixar o Insta da loja de lado, mas a galera continuou mantendo contato e, agora que comecei a realizar vendas pelo site, as coisas tão entrando nos eixos”.

Foto: reprodução

O proprietário também reconhece que o preço das obras é outro fator que afasta os leitores. “Se 90 reais já era considerado caro, com o dólar disparando cada vez mais, as editoras terão que reavaliar os preços”, comenta.

Quadrinhos online

Sensibilizados com essa situação toda, muitos quadrinistas passaram a disponibilizar seus trabalhos para leitura gratuita na internet (leia). Um ato de solidariedade que ajuda a diminuir o peso do isolamento social e pode fazer com que novas pessoas passem a apreciar a nona arte.

Guilherme Kroll, editor da Balão Editorial, informou que os números sobre leituras de HQs nesse período estão muito difusos para entregar um panorama exato do cenário. “Fazendo um paralelo com os ebooks, que temos números, posso inferir que a busca por HQs online aumentou”, conta.

Além de artistas independentes e editoras, a gigante Amazon também disponibilizou quadrinhos gratuitos durante a quarentena.

Mas, mesmo com o aumento de downloads de quadrinhos digitais, Sidney Gusman, editor dos livros da Mauricio de Sousa Produções, acredita que ainda é muito cedo para afirmar que isso vai alavancar o mercado de HQs: “primeiro a gente tem que descobrir uma forma para o quadrinho online se pagar no Brasil, o que ainda não ocorre. E as editoras e artistas precisam ter uma fonte de renda, ou essa produção não vai continuar acontecendo”.

Quadrinhos independentes

Com menos quadrinhos internacionais chegando por aqui, Kroll acredita que tenha se formado um vácuo interessante para a produção independente. “Precisamos entender como qualquer consumo vai se desenrolar antes de saber como ficarão as HQs, mas acho que podemos prever um crescimento para os quadrinhos autorais”.

O quadrinista Matheus Mendes, autor da trilogia Nico, conta que a busca pelo seu trabalho aumentou durante a pandemia. “Como as pessoas estão passando mais tempo dentro de casa, elas precisam de mais conteúdos para se distrair, sabe? Então, elas acabam indo para as redes sociais e, por lá, eu tenho conseguido um público muito legal”, conta.

A lojinha online do Matheus ficou mais movimentada durante a quarentena. Foto: reprodução

Mendes relata ainda que, como tudo tem mudado na sociedade, ele percebeu uma mudança até na forma como as pessoas interpretam as obras: “Eu acabei de lançar um gibi que a história se passa no metrô (Metrô Warrios) e teve um pessoal que veio falar da saudade de sofrer no transporte público”.

Feiras e eventos

Como uma das recomendações das organizações de saúde é evitar aglomerações, ainda não se sabe quando voltaremos a ter feiras e eventos de quadrinhos, o que é um soco na cara de todo mundo que trabalha com isso.

A notícia de que o FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), sediado em Belo Horizonte, e a Bienal de Quadrinhos de Curitiba foram adiados abalou muitos autores nacionais, incluindo o Matheus.

Feiras e festivais são vitais para que novas pessoas conheçam o trabalho de mais quadrinistas. Foto: divulgação/Glenio Campregher

“Sem os eventos, perco aquela segurança de apresentar e vender o meu trabalho para um público que talvez não me encontrasse por outro lugar. Além disso, não poder encontrar e reencontrar pessoas que acompanham e gostem do seu trabalho, assim como os amigos artistas, diminui a energia de produzir coisas novas”, revela o quadrinista.

Guilherme Lorandi nos lembra que o efeito disso pode ser sentido até nos eventos de menores escalas, sediados frequentemente por comic shops ao redor do mundo: “Já pensou viver num mundo sem sessões de autógrafos, espaços para convivência ou discussão? Não dá”.

E como ficarão as coisas quando esse caos passar?

Seria incrível poder entregar uma previsão exata de como o mercado de quadrinhos ficará após o fim da pandemia, principalmente se essa previsão fosse positiva. Mas, por enquanto, só podemos fazer especulações baseadas nas conversas (majoritariamente virtuais) que temos com a galera desse meio.

O editor da MSP valoriza os leitores que estão fazendo o possível para continuarem ajudando o mercado e comprando HQs, mesmo que sejam obras feitas para a internet. “Isso já é uma mudança significativa. Espero que as pessoas fiquem mais abertas para novas ideias e conceitos relacionados a quadrinhos”

Para Guilherme Kroll, a vida em 2021 será bem diferente, pois todos os nossos hábitos tendem a mudar.

Ilustração feita por Danilo Generalli especialmente para a matéria.

O que não deve mudar, felizmente, é a nossa paixão pela nona arte e a busca por novas histórias de qualidade. Então, não importa o rumo que o mercado de HQs tome, continuaremos apoiando nossos artistas, acompanhando nossos personagens mais queridos e acreditando que tempos melhores virão.

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