Laerte Coutinho fala sobre a relação com suas obras e seus leitores

É praticamente impossível falar de quadrinhos nacionais sem falar sobre Laerte Coutinho, uma das nossas cartunistas mais premiadas e queridas pelos leitores.

Se você acompanha a artista em suas redes sociais, já sabe que esse começo de ano não foi fácil para ela. No final de janeiro, Laerte anunciou em seu Twitter que havia contraído o coronavírus e, em decorrência disso, passou 10 dias internada no Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Sua recuperação foi muito comemorada pelos fãs e pela comunidade artística. Laerte recebeu até uma chamada de vídeo do Padre Júlio Lancellotti, que gentilmente definiu como “santo papo”.

Com tudo isso rolando, fiquei muito feliz quando a cartunista topou fazer uma entrevista comigo por e-mail. Mesmo à distância, conseguimos falar um pouquinho sobre suas obras e a sua relação, tanto com os leitores quanto com a nova geração de quadrinistas.

Olha aí:

Pão Com Lixo: Quando você começou a desenhar as suas primeiras tiras, imaginava, ou ao menos sonhava, que você acabaria se tornando uma personagem importante dos quadrinhos nacionais?

Laerte: Não sei, Daniel. Provavelmente sim.

Mas acho que ser um “grande nome” nunca foi a meta principal.

Se é que eu tinha uma meta.

Isso tudo foi há quase 50 anos…

PCL:  Muitas vezes ouvimos que “o quadrinho nacional não tem memória”, mas você já foi tema de exposições, documentários e agora sua obra está sendo republicada na coleção Laerte Total. Você se sente de alguma forma privilegiada por ter todo esse reconhecimento e por ver o carinho do público com a sua obra? Quais outros artistas nacionais você gostaria de ver ganhando coleções similares?

Laerte: Privilégio é um conceito fedorento, é uma “lei privada”, algo estabelecido para beneficiar a poucos.

Eu me sinto objeto de carinho, sinto que meu trabalho significa alguma coisa para as pessoas que me leem.

Há muitas outras autoras e autores a destacar ou homenagear, claro.

Não me peça uma lista!

PCL: Você já disse em algumas entrevistas que não se reconhece quando revisita trabalhos antigos. Atualmente, como está sua relação com seus personagens clássicos? Algo mudou?

Laerte: Eu continuo sentindo desconforto quando avalio trabalhos que já fiz – praticamente qualquer trabalho.

É um modo meu, um tanto injusto, me parece – trabalho isso na análise, mas até agora não consegui ter uma postura melhor.

PCL:  Além de trazer críticas extremamente necessárias e criar situações humorísticas, você muitas vezes aborda situações muito pessoais em seus trabalhos. Isso alguma vez foi motivo de insegurança para você? Ou a necessidade/vontade de externalizar alguns sentimentos sempre falou mais alto?

Laerte: Humor tem esse problema: ele se realiza num ambiente emocional “controlado” – um território mais puramente racional -, mas uma parte importante da pessoa que cria humor precisa incorporar essa emoção, de alguma forma. 

Como fazer?

Não tem como estabelecer uma fórmula.

É ir negociando.

PCL:  Atualmente, o que te inspira/motiva para escrever suas tiras? E como é receber a reação imediata dos leitores?

Laerte: Não sei como responder à primeira pergunta.

Quanto à segunda, uma das melhores coisas das tecnologias modernas é permitir o contato com as pessoas que nos leem.

Pode-se ganhar bastante, em vários sentidos.

PCL:  Felizmente, você sempre foi uma artista muito prestigiada, até mesmo por suas contribuições em publicações e programas humorísticos importantes. Mas hoje em dia, temos uma nova leva de jovens artistas e estudantes que estão descobrindo seus trabalhos na internet e demonstrando diariamente admiração por você. Como é a sua relação com esse público mais novo?

Laerte: Uma boa parte é de inveja.

PCL:  Recentemente, você passou 10 dias internadas com Covid-19 e, ao deixar o hospital, fez questão de dizer que venceu a doença graças ao apoio de todos que estavam torcendo por sua recuperação. Surgiu até uma corrente onde artistas se desenhavam ao seu lado, fazendo o agora tradicional cumprimento de cotovelo. Como foi passar por essa experiência toda e o que ela representou para você?

Laerte: Houve o apoio das pessoas que torceram e, principalmente, o das pessoas que trabalham no atendimento do Incor – profissionais de todas as áreas, que me fizeram sentir segura e bem cuidada.

Apoio, solidariedade, consciência, lucidez – é o que vai nos fazer vencer a batalha pela saúde e a luta contra o fascismo que tenta controlar o Brasil.

PCL: Nos últimos anos, as mulheres passaram a ocupar mais espaços no nosso cenário de quadrinhos, mas ainda lutam contra o machismo que continua presente nesse meio. Qual recado você daria para essas artistas?

Laerte: Não preciso dar recado – elas já estão dando esse recado!

Laerte continua publicando suas tiras na Folha de S.Paulo e em seu Twitter. Para seguir a artista, é só clicar aqui!

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