NFTs: será que agora todo artista vai ficar rico?

Desde o início da semana, os NFTs têm sido o principal tema de discussão entre as comunidades artísticas. Muita gente ainda não entende bem o que significa essa sigla, mas “pelo que dizem por aí”, parece algo milagroso que vai tirar todo artista da miséria.

Não surpreende, já que no dia 11 de março, a famosa casa de leilões Christie´s vendeu um NFT por US$ 69,3 milhões. Neste caso, o objeto vendido era um arquivo em JPEG que só existe virtualmente: a obra entitulada “Everydays — The First 5000 Days” do artista Mike Winkelmann, mais conhecido como Beeple.

NFTs - Beeple
Imagem: Beeple

Mas o que é um NFT?

Basicamente, é um token não fungível, ou como é chamado em inglês: Non-Fungible Token. Quando você transforma um arquivo em um desses tokens encriptografados, você cria uma espécie de certificado virtual de autenticidade, fazendo com que ele seja único.

A propriedade desses NFTs é registrada em um blockchain, que é uma tecnologia que permite registrar e rastrear transações feitas com criptomoedas. Sendo assim, o mercado das criptoartes parece ser bastante seguro e promissor.

Pena que ainda temos poucas informações sobre esse assunto e, na maioria das matérias, a linguagem é bastante complicada ou apenas o lado positivo é retratado. Assim, os artistas podem cair em ciladas e até serem “cancelados” por estarem poluindo o planeta.

O outro lado da criptomoeda

É estranho pensar que algo 100% digital possa causar impactos ambientais, né? Mas como essa tecnologia exige que vários computadores ao redor do mundo trabalhem simultaneamente para executar um montão de cálculos, você acaba gastando uma quantidade de energia absurda, tanto para gerar um NFT quanto para minerar as moedas usadas nas transações.

Para você ter uma ideia, a plataforma Cryptoart.wtf publicou uma estimativa do impacto ambiental gerado com a venda de NFTs da cantora Grimes. Ela registrou como tokens mais de 300 edições de um vídeo e vendeu cada um por US$ 7.500.

Essa brincadeira consumiu no total 122,416 kilowatts-hora de eletricidade: mais ou menos 79 toneladas de dióxido de carbono. Tente calcular agora quanta poluição é gerada na venda de um quadro de quase 70 milhões de dólares.

Dan Wernëck, artista e professor da Escola de Artes da UFMG, conta que ao mesmo tempo que algumas pessoas não se importam de vender seus NFTs “porque o impacto ambiental já foi causado durante a mineração das moedas”, tem muita gente se recusando a compactuar com isso e fazendo duras críticas a quem entra nesse mercado.

“Por isso, antes de registrar um NFT, o artista deve calcular o impacto que isso terá em sua reputação. Você poderá ganhar criptomoedas, mas também poderá perder muitos seguidores e ser malvisto pela comunidade artística”, comenta.

O designer João Tila também nota esse movimento, mas ressalta que é importante buscar entender os dois lados e direcionar o foco das discussões para os verdadeiros responsáveis. “Já existem blockchains que emitem muito menos carbono em suas minerações, mas elas não são tão disseminadas quanto as principais. Nós devemos chamar atenção das grandes plataformas e dos artistas envolvidos em grandes transações para que busquem formas de diminuir o impacto ambiental dessas negociações”.

O que é meu… é de todo mundo

Outro ponto que faz com que os NFTs chamem a atenção dos artistas é a sensação de segurança que os tokens trazem. Afinal, se você registrar uma arte, ninguém mais vai poder copiá-la ou usá-la indevidamente, né?

Não é bem assim. Pra começar, registrar um NFT não é tão simples e nem gratuito. Você deve conectar uma das carteiras aceitas pelo serviço e ter a criptomoeda Ethereum para poder fazer o serviço de cunhagem (mint) desses tokens.

Depois de tudo isso, com o seu NFT registrado, o arquivo de sua arte continuará disponível na internet e as pessoas poderão usá-lo como bem entenderem. Então, por que alguém pagaria caro por uma coisa dessas?

Para Tila, a resposta é simples: status. “Para quem compra criptoarte, o que conta mesmo é o certificado de que aquela obra tem dono. É como comprar o quadro da Mona Lisa: qualquer pessoa pode pegar uma versão digital da obra na internet e imprimir para ter em casa, mas a original pertenceria a uma pessoa só”.

Wernëck lembra que o contrário também pode acontecer. “E se alguém colocar uma arte minha no Blockchain indevidamente, como eu vou fazer pra tirar ela de lá? Não consigo fazer isso porque não existem regulamentações nesse mercado e eu não tenho para quem reclamar”.

Não é de se espantar que muita gente chegue a comemorar quando alguém “tokeniza” arte de grandes corporações sem autorização. “Se mexerem com o bolso dessas empresas, pode ser que as coisas mudem de figura e surjam meios de proteger os artistas”, explica o professor.

Quer dizer que os NFTs são apenas uma cilada?

Não necessariamente. Se você entender que o público comprador de NFTs ainda é bastante pequeno e com gostos específicos, você pode se dar muito bem. Principalmente se encontrar uma forma de negociar suas artes com menos impactos ambientais.

João Tila relata que existem até pessoas que compram criptoartes para incentivarem artistas menores ou iniciantes. “Como toda nova tecnologia, os NFTs têm potencial para ajudar a comunidade artística de diversas formas, o problema é que as discussões sobre esse mercado chegaram no Brasil há pouco tempo, então os artistas ainda têm dificuldade para encontrar matérias de referência em português. Por isso encontramos tantas pessoas criticando ou entrando de cabeça nessa onda sem entender direito o que esperar dela”.

Sabendo disso, Dan Wernëck aconselha todo artista a pesquisar e entender melhor sobre criptomoedas e blockchains de um modo geral, mesmo que nunca as use ou queira apenas evitar golpes. “Essas tecnologias se tornarão cada vez mais populares e em algum momento cruzarão o caminho de todo mundo que trabalha com arte”.

E, para quem ficou com vontade de se aprofundar no assunto, recomendo que escute este podcast da Mimimídias, que contou com a participação de Tila:

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