O curioso caso do Come Prima

Na última terça-feira, os jornalistas especializados em quadrinhos/cultura pop receberam um e-mail com os próximos lançamentos da editora Devir, incluindo a obra que foi traduzida para Como Antigamente, do Alfred. Um dia depois, a editora informou que precisou manter o título original em italiano: Come Prima.

É óbvio que a situação gerou todo tipo de comentário nas redes sociais. Afinal, o que uma pessoa que não acompanhou essa história e não fala italiano pensaria ao ler aquele título? Provavelmente acharia obsceno demais ou pegaria a obra pra ler por pura curiosidade. Nesse último caso, só conseguiria entender por que o quadrinho foi chamado de Come Prima se a editora explicasse em algum momento.

Come Prima - Devir

Esta cilada da Devir, apesar de ser um tanto quanto cômica, é uma boa oportunidade para retomar uma velha discussão entre os fãs de quadrinhos e cultura pop em geral: traduzir ou não traduzir?

Neste episódio do Confins do Universo, podcast do Universo HQ, o tradutor Jotapê Martins explica que era a favor de traduzir absolutamente tudo que podia nas histórias em quadrinhos, já que eram produtos baratos e deveriam ser acessíveis. Assim, o Wolverine se tornaria Carcaju e Peter Parker se tornaria Pedro Prado, para citar alguns exemplos.

Jotapê lembra ainda que muitos dos nomes que não foram traduzidos, nós acabamos falamos de maneira “errada”. É o caso do professor Xavier, que deveríamos dizer algo como ÉQUISSEIVIER. Aliás, os próprios X-Men, antes dos desenhos e filmes, eram chamados de XIS-Men.

Come Prima - Confins do Universo

Aos poucos, foi se decidindo o que cabia ser traduzido e o que podia ser mantido no original. Alguns personagens, que já eram bastante conhecidos por seus nomes em português, até voltaram a ter o nome em inglês, como o Super-Homem, que agora é chamado apenas de Superman.

Situações mais parecidas com a do Come Prima acontecem com frequência no cinema. Em 2018, quando a Pixar lançou o filme Coco, seu nome foi traduzido para Viva – A Vida é Uma Festa, garantindo que os brasileiros não confundissem com a fruta ou com algo um pouco mais nojento, caso não respeitassem a grafia.

E na saga Star Wars há diversos personagens com nomes alienígenas, mas que, para os brasileiros, soam como piadas de quinta série. O mais famoso deles é o Count Dooku, que foi traduzido para Conde Dookan. O Dublador Guilherme Briggs contou em muitas entrevistas que escreveu uma carta para os produtores explicando que, se não trocasse o nome do personagem, a galera daqui o chamaria de Count from the Ass.

Come Prima - Count Dooku

Deu para perceber que essa discussão não é nada simples e pode ser afetada por muitas variáveis, né? Infelizmente, Come Prima não é um título tão famoso quanto aqueles publicados pela Marvel ou DC, então acaba sendo procurado por um público mais nichado mesmo, o que tira um pouco de forças da editora na hora de barganhar a troca do nome.

Por outro lado, manter o título em italiano pode ser um baita empecilho na hora de divulgar a obra pra outros leitores. Que pepino, hein?

Sobre o título:

No início dos anos 60, os irmãos Fabio e Giovanni estão prestes a iniciar uma longa jornada. Dentro de um Fiat 500, o caminho será pontuado por discussões amargas, longos períodos de silêncio, lembranças e encontros, e os levará de volta a sua terra natal, a Itália – um lugar que Fabio não visita há anos.

Aos poucos, descobrimos quem foi o pai deles, como é difícil a relação entre os membros da família e como o fascismo os dividiu.

A obra terá formato: 17 x 24 cm, 224 páginas, capa dura e custará R$99,00.

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